Texto Áureo: “Então, disse:
Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel, pois, como príncipe, lutaste
com Deus e com os homens e prevaleceste.” (Gn 32.28).
Leitura Bíblica em Classe: Gênesis
32.22-31.
Introdução: Existe algo muito humano na atitude de Jacó antes de encontrar Esaú. Depois de anos distante, ele sabia que estava prestes a encarar o irmão que havia enganado e que, segundo as últimas notícias, ainda poderia guardar ressentimento. Por isso, envia mensageiros, presentes e palavras cuidadosamente escolhidas. Em sua mensagem, chama Esaú de "meu senhor" e se apresenta como "teu servo". >>
Há certa dose de prudência nisso, mas
também revela que Jacó ainda estava tentando resolver seus problemas por meio
da habilidade humana. O homem que havia recebido promessas extraordinárias de
Deus ainda lutava para confiar plenamente nelas.
A verdade é
que Deus não queria apenas reconciliar Jacó com Esaú; queria transformar Jacó
em Israel. Antes de enfrentar o irmão, ele precisava enfrentar a si mesmo.
Antes de vencer externamente, precisava ser quebrantado internamente. E foi
exatamente isso que aconteceu naquela noite às margens do Jaboque.
1. O CAMINHO PARA A
TRANSFORMAÇÃO DE JACÓ.
Gênesis 32.22 — E
levantou-se aquela mesma noite, e tomou as suas duas mulheres, e as suas duas
servas, e os seus onze filhos, e passou o vau de Jaboque. Gênesis 32.23 — E
tomou-os e fê-los passar o ribeiro; e fez passar tudo o que tinha.
Aquela não era
uma noite comum. Jacó estava inquieto. O medo de Esaú ocupava seus pensamentos,
e o futuro parecia incerto. O Jaboque tornou-se um divisor de águas em sua
vida. Até aquele momento, Jacó havia vivido tentando controlar as
circunstâncias. Agora, Deus o conduzia a um lugar onde ele perderia
completamente o controle.
Muitas vezes o
Senhor também nos leva a atravessar nossos próprios Jaboques. São momentos em
que percebemos que nossas estratégias não são suficientes para resolver os
conflitos, medos e desafios que enfrentamos.
Deus
frequentemente usa períodos de crise para nos preparar para uma transformação
maior do que imaginamos.
Jacó faz
atravessar sua família, seus servos e seus bens. Tudo aquilo que representava
sua segurança fica do outro lado do rio. Pela primeira vez, ele se vê sem
nenhum recurso humano ao alcance das mãos.
O Senhor
costuma agir da mesma maneira conosco. Antes de realizar uma grande obra em
nossa vida, muitas vezes remove aquilo em que estamos confiando excessivamente.
Deus deseja
ser nossa principal segurança. Enquanto nossa confiança estiver apoiada em
pessoas, recursos ou capacidades próprias, ainda teremos dificuldade de
descansar plenamente nele.
2. O CONFRONTO NOTURNO: O
INÍCIO DA RENDIÇÃO.
Gênesis 32.24 — Jacó, porém,
ficou só; e lutou com ele um varão, até que a alva subia. Gênesis 32.25 — E,
vendo que não prevalecia contra ele, tocou a juntura de sua coxa; e se deslocou
a juntura a juntura da coxa de Jacó, lutando com ele. Gênesis 32.26 — E disse:
Deixa-me ir, porque já a alva subiu. Porém ele disse: Não te deixarei ir, se me
não abençoares.
A solidão de
Jacó não foi um acidente; foi um cenário preparado por Deus. Quando todos
partiram, começou a verdadeira batalha.
O texto diz
que um homem lutou com ele. Mais tarde, Jacó reconhece que havia estado diante
do próprio Deus. Muitos estudiosos entendem que se trata de uma manifestação do
Senhor antes da encarnação de Cristo, aquele que em outras passagens é chamado
de Anjo do Senhor ou Anjo da Aliança.
É interessante
notar que não foi Jacó quem iniciou a luta. Deus tomou a iniciativa. O objetivo
não era destruir Jacó, mas revelar aquilo que ainda precisava ser transformado
nele.
As maiores
batalhas espirituais não acontecem contra circunstâncias externas, mas dentro
do nosso próprio coração.
À primeira
vista, o texto parece sugerir que Deus não conseguia vencer Jacó. Evidentemente
não é esse o sentido. Bastou um toque para deslocar sua coxa.
O Senhor
estava permitindo que Jacó experimentasse sua própria resistência para, em
seguida, mostrar-lhe quão limitada era sua força. Durante toda a vida, Jacó
venceu pela inteligência, pela persistência e pela astúcia. Agora Deus toca
exatamente no símbolo de sua força.
Há feridas que
não são castigos, mas instrumentos de transformação.
Deus
frequentemente toca aquilo que consideramos nossa maior força para nos ensinar
que dependemos dele em todas as coisas.
Nesse momento
a luta muda completamente de natureza.
O homem que
antes lutava para controlar sua vida agora apenas se agarra a Deus. Sua força
desapareceu, mas sua fé se fortaleceu. Aquele abraço desesperado demonstra que
Jacó finalmente compreendeu onde estava a verdadeira fonte da bênção.
Ele já não
busca vantagens materiais, nem proteção contra Esaú. Busca o próprio Deus.
Aplicação: A
oração mais poderosa nasce quando entendemos que necessitamos de Deus mais do
que necessitamos das respostas que ele pode nos dar.
3. A NOVA IDENTIDADE: A
TRANSIÇÃO DE JACÓ PARA ISRAEL.
Gênesis 32.27 — E disse-lhe:
Qual é o teu nome? E ele disse: Jacó. Gênesis 32.28 — Então, disse: Não se
chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel, pois, como príncipe, lutaste com Deus
e com os homens e prevaleceste.
Deus sabia
perfeitamente o nome de Jacó. A pergunta tinha outro propósito.
Na cultura
bíblica, o nome estava ligado ao caráter e à identidade. Ao responder
"Jacó", ele estava reconhecendo quem havia sido durante toda a vida:
o suplantador, o enganador, o homem acostumado a resolver tudo por meios
próprios.
Toda
transformação genuína começa com sinceridade diante de Deus.
O Senhor não
trabalha sobre máscaras. Ele transforma aqueles que têm coragem de reconhecer
suas fraquezas e pecados.
A mudança de
nome simboliza uma mudança de vida.
Deus não
estava apenas corrigindo alguns comportamentos; estava criando uma nova
identidade. Jacó entrou naquela noite como um homem que confiava em si mesmo.
Saiu dela como alguém que aprendera a depender do Senhor.
A verdadeira
vitória de Jacó não foi derrotar Deus, mas render-se a ele.
Deus não quer
apenas melhorar nossa vida; ele deseja transformar quem somos.
4. FACE A FACE COM DEUS JACÓ
RECEBE A MARCA DA GRAÇA.
Gênesis 32.29 — E Jacó lhe
perguntou e disse: Dá-me, peço-te, a saber o teu nome. E disse: Por que
perguntas pelo meu nome? E abençoou-o ali. Gênesis 32.30 — E chamou Jacó o nome
daquele lugar Peniel, porque dizia: Tenho visto a Deus face a face, e a minha
alma foi salva. Gênesis 32.31 — E saiu-lhe o sol, quando passou a Peniel; e
manquejava da sua coxa.
Jacó pede para
conhecer o nome daquele que o abençoara. A resposta parece misteriosa: "Por
que perguntas pelo meu nome?"
Há momentos em
que Deus responde nossas perguntas. Há outros em que sua presença vale mais do
que qualquer explicação.
Jacó não
recebeu todas as respostas, mas recebeu aquilo de que realmente precisava: a
bênção de Deus.
Nem sempre
compreenderemos os caminhos do Senhor, mas podemos confiar em seu caráter e em
sua fidelidade.
Peniel
significa "face de Deus".
Jacó reconhece
que sua vida foi poupada apesar de ter experimentado uma manifestação tão
poderosa da presença divina. Aquele encontro mudou para sempre sua percepção de
Deus.
Até então, ele
conhecia o Deus de Abraão e o Deus de Isaque. Agora conhecia o Deus que havia
encontrado pessoalmente.
Nenhuma
experiência religiosa substitui um relacionamento pessoal e profundo com Deus. Depois
da noite escura, o sol nasceu. Contudo, Jacó atravessa o vale mancando. Aos
olhos humanos, parece mais fraco do que antes. Mas espiritualmente ele nunca
havia sido tão forte.
Aquela
limitação física tornou-se uma lembrança permanente de que sua vida dependia da
graça de Deus.
Quantas vezes
desejamos que Deus nos livre de todas as marcas das lutas, quando ele deseja
transformar essas marcas em testemunhos de sua fidelidade.
As cicatrizes
deixadas pelo agir de Deus não diminuem nossa utilidade; elas nos tornam mais
dependentes dele.
O
acontecimento foi tão marcante que passou a fazer parte da memória do povo de
Israel.
Uma
experiência pessoal transformou-se em legado coletivo. O que Deus fez na vida
de Jacó alcançou gerações futuras.
Nossas
experiências com Deus nunca dizem respeito apenas a nós. Elas influenciam nossa
família, nossa igreja e aqueles que virão depois de nós.
Conclusão
Aquela noite
no Jaboque não foi a história de um homem forte vencendo Deus. Foi a história
de um homem autossuficiente sendo vencido pelo amor transformador de Deus.
Jacó entrou
naquela luta apoiado em sua própria capacidade; saiu dela apoiado no Senhor.
Entrou como alguém que confiava em seus recursos; saiu como alguém que dependia
da graça. Entrou como Jacó; saiu como Israel.
Às vezes Deus
também permite lutas em nossa vida que não entendemos no momento. Elas nos
deixam feridos, quebrantados e conscientes de nossas limitações. Contudo,
quando essas lutas são conduzidas pelas mãos do Senhor, descobrimos que certas
derrotas são, na verdade, as maiores vitórias da vida espiritual.
Não há
problema em sair mancando de um encontro com Deus, se nessa caminhada
aprendermos a nos apoiar menos em nossa própria força e mais na força eterna
daquele que nunca falha. É melhor caminhar com uma coxa ferida e um coração
transformado do que correr com vigor físico, mas distante da presença do
Senhor. Afinal, os homens mais usados por Deus não são os que confiam em si
mesmos, mas os que aprenderam a depender inteiramente dele.
Pastor Adilson Guilhermel

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