Esboços e Comentários das Lições Bíblicas. Th.M Adilson Guilhermel

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LIÇÃO 11 - O PAI E O ESPÍRITO SANTO


TEXTO ÁUREO: “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.” (Rm 8.14).

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Romanos 8.12-17; Gálatas 4.1-6.

 

Introdução: Uma das maiores dificuldades da vida cristã não é apenas compreender o evangelho, mas viver de acordo com a posição que recebemos em Cristo. Muitas vezes, embora a Bíblia declare que somos filhos de Deus, na prática ainda agimos como servos temerosos ou até como escravos espirituais, vivendo sob o peso da culpa, do medo ou de um esforço constante para tentar merecer o favor de Deus.

Foi exatamente esse problema que o apóstolo Paulo enfrentou ao escrever aos cristãos da Galácia. Alguns mestres estavam ensinando que a fé em Cristo não era suficiente e que, para alcançar plena aceitação diante de Deus, os crentes também precisavam se submeter novamente às exigências da lei. Esse ensino colocava em risco a essência do evangelho, pois transformava a vida cristã em um sistema de obrigações e méritos humanos.

Por isso, em Gálatas 4.1–6, Paulo apresenta uma ilustração poderosa para explicar o propósito de Deus na obra de Cristo. Ele mostra que, antes da vinda de Jesus, a humanidade vivia como um herdeiro ainda menor de idade, sob tutela e restrições. Porém, com a vinda do Filho de Deus, tudo mudou: fomos libertos da condição de servos e recebemos a adoção de filhos. Essa passagem nos convida a refletir sobre uma verdade essencial do evangelho: Deus não nos chamou para viver como escravos espirituais, mas como filhos que desfrutam da liberdade, da segurança e da alegria na casa do Pai.

A pergunta que precisamos fazer hoje é esta: estamos realmente vivendo como filhos de Deus ou ainda carregamos a mentalidade de escravos? A resposta a essa pergunta tem profundas implicações para nossa fé, nossa alegria e nosso serviço no Reino de Deus.

 

1. ELE NOS CONSCIÊNTIZA DA NOSSA RESPONSABILIDADE ESPIRITUAL  

Romanos 8.12 — De maneira que, irmãos, somos devedores, não à carne para viver segundo a carne, Romanos 8.13 — porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis.

O apóstolo Paulo, ao escrever esses versículos, apresenta uma das verdades mais profundas da vida cristã: aqueles que pertencem a Cristo vivem sob a direção do Espírito Santo e, por isso, são filhos e herdeiros de Deus.

Quando o texto fala do “Espírito”, naturalmente está se referindo ao Espírito Santo, por meio de quem Cristo habita em nós. Essa realidade é extraordinária. Podemos ilustrá-la da seguinte forma: assim como a mesma vida que pulsa no coração também se manifesta no pulso, da mesma forma a vida que está em Cristo, na glória, também está presente no coração do crente. Não se trata apenas de imitar Cristo externamente, mas de possuir a própria vida dEle operando dentro de nós por meio do Espírito.

Diante dessa verdade, surge uma responsabilidade espiritual. Nossa principal tarefa na vida cristã é remover tudo aquilo que impede a manifestação plena dessa vida de Cristo em nós. O apóstolo fala sobre “mortificar as obras do corpo”. Isso significa rejeitar e abandonar práticas, hábitos e inclinações que pertencem à velha natureza.

O corpo, quando governado pela carne, tende sempre ao comodismo, à autossatisfação e ao prazer egoísta. Ele cria estratégias para evitar disciplina espiritual, oração, santidade e compromisso com Deus. Por isso, Paulo nos lembra que não somos devedores à carne; não devemos viver de acordo com seus desejos.

Entretanto, a vitória sobre essas inclinações não é alcançada pela força humana. Em nenhum estágio da nossa caminhada cristã podemos dispensar o poder do Espírito de Deus. É Ele quem nos capacita a vencer as obras do corpo e a viver de maneira que agrada ao Senhor.

A vida cristã exige uma postura ativa contra o pecado, mas essa vitória acontece pelo poder do Espírito.

2. A DIREÇÃO DO ESPÍRITO É QUE NOS REVELA QUEM SOMOS

Romanos 8.14 — Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Romanos 8.15 — Porque não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez, estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai.

Mas a obra do Espírito não se limita apenas à libertação do pecado. Existe uma dimensão ainda mais profunda e bendita. O Espírito Santo também deseja guiar nossa vida, orientar nossos propósitos e formar em nós o caráter de Cristo. Ele atua em nossos pensamentos, decisões e atitudes, conduzindo-nos por um caminho de transformação contínua.

À medida que nos submetemos à sua direção, cresce em nós uma consciência mais profunda da nossa relação filial com Deus. Já não nos aproximamos de Deus apenas como criaturas ou servos, mas como filhos. E essa realidade se expressa no clamor que brota do coração: “Aba, Pai”. Essa expressão revela intimidade, confiança e amor. O Espírito testifica ao nosso espírito que realmente pertencemos à família de Deus.

O Espírito quer guiar os nossos pensamentos; nossas decisões; nossas atitudes e nossos valores. Quando permitimos essa direção, nosso caráter começa a refletir o caráter de Cristo. A evidência da filiação divina não é apenas uma profissão de fé, mas uma vida conduzida pelo Espírito.

3. A NOSSA FILIAÇÃO DIVINA É TESTIFICADA PELO ESPÍRITO SANTO.

 Romanos 8.16 — O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Romanos 17 — E, se nós somos filhos, somos, logo, herdeiros também, herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo; se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados.

E então chegamos ao ponto culminante da passagem. Paulo declara que, se somos filhos, também somos herdeiros. Herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo. Isso significa que todas as riquezas espirituais preparadas por Deus pertencem àqueles que estão unidos a Cristo.

O Espírito Santo, portanto, não apenas nos conduz à santidade, mas também nos leva a conhecer e desfrutar das riquezas da graça divina. Ele nos convida a tomar posse dos recursos espirituais que Deus preparou para nós — recursos que não pertencem apenas ao futuro eterno, mas que já podem ser experimentados nesta vida: paz, força, consolo, esperança e poder espiritual.

Assim, Romanos 8:12–17 nos mostra que a vida cristã é muito mais do que regras ou deveres religiosos. É uma vida vivida no Espírito, marcada por libertação do pecado, transformação de caráter, intimidade com Deus e participação nas riquezas da herança divina.

O Espírito não apenas nos transforma; Ele também nos faz experimentar a proximidade de Deus como Pai.

 

4. NA GRAÇA VIVEMOS COMO FILHOS E, NÃO COMO ESCRAVOS

Gálatas 4.1 — Digo, pois, que, todo o tempo em que o herdeiro é menino, em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo. Gálatas 4.2 — Mas está debaixo de tutores e curadores até ao tempo determinado pelo pai. Gálatas 4.3 — Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo; Gálatas 4.4 — mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, Gálatas 4.5 — para remir os que estavam debaixo da lei, afim de recebermos a adoção de filhos. Gálatas 4.6 — E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.

O apóstolo Paulo, ao escrever aos cristãos da Galácia, trata de uma questão muito séria: alguns estavam sendo ensinados que, além da fé em Cristo, era necessário submeter-se novamente ao sistema da lei para alcançar ou manter a salvação. Diante disso, Paulo explica que voltar a esse tipo de dependência espiritual seria como trocar a liberdade de filhos pela condição de escravos. Embora a legislação Mosaica fosse santa, justa e elevada em seus princípios, ela fazia parte de um período específico do plano de Deus. Ela funcionava como um tutor ou guardião, preparando o povo para a vinda de Cristo. No entanto, quando apresentada como condição para a salvação, ela se tornava um sistema inadequado, pertencente a uma era já superada pela obra redentora de Cristo. O propósito completo de Deus, ao enviar seu Filho ao mundo, foi resgatar-nos do domínio da lei, não para nos deixar sem direção moral, mas para nos introduzir em um relacionamento muito mais profundo e glorioso: a relação de filhos dentro da casa do Pai. Paulo explica essa verdade com uma ilustração simples. Um herdeiro, enquanto ainda é criança, pouco difere de um escravo, pois vive sob a supervisão de tutores e administradores. Mas quando chega o tempo determinado pelo pai, ele recebe sua plena posição de filho e herdeiro. Assim também aconteceu conosco. Antes de Cristo, a humanidade vivia sob limitações e tutelas espirituais. Mas, com a vinda do Filho de Deus, fomos introduzidos em uma nova realidade. Deus enviou seu Filho “nascido de mulher, nascido sob a lei” para redimir aqueles que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E essa adoção não é apenas um título jurídico. É uma experiência viva. Paulo afirma que Deus enviou o Espírito de seu Filho aos nossos corações, que clama: “Aba, Pai”. Esse clamor expressa intimidade, confiança e pertencimento. Portanto, a posição do crente é extraordinária: não somos mais meninos espirituais, nem escravos, mas filhos; e, sendo filhos, também somos herdeiros de Deus.

Apesar dessa posição gloriosa em Cristo, muitos cristãos vivem como se ainda fossem escravos espirituais. Alguns carregam um constante sentimento de fracasso, culpa ou inadequação, como se nunca pudessem se aproximar de Deus com liberdade. Essa atitude não corresponde à nossa posição em Cristo. O evangelho não nos chama para uma vida marcada por medo constante, mas para uma vida de confiança na graça de Deus. Isso não significa viver de forma descuidada ou irresponsável. Significa viver conscientes de que pertencemos à família de Deus e que nossa relação com Ele não se baseia em méritos humanos, mas na obra perfeita de Cristo.

Por isso, não devemos viver excessivamente ansiosos ou atormentados espiritualmente. Em vez disso, devemos habitar na casa do Pai com o coração livre, confiando em seu amor e em sua provisão. Viver como filhos significa reconhecer que estamos, espiritualmente falando, debaixo do mesmo teto que Cristo. Ele é o Filho por natureza; nós somos filhos por adoção. No entanto, participamos das riquezas de sua graça. Como filhos temos acesso: ao perdão de Deus; à sua presença; ao auxílio divino nas dificuldades; à força para cumprir nossa vocação cristã. Podemos recorrer constantemente à graça de Deus, sabendo que Ele cuida de nós como um Pai Amoroso.

Essa consciência também deve transformar nossa maneira de viver e servir.

Primeiro, não devemos rejeitar as tarefas que Deus coloca diante de nós, mesmo quando parecem cansativas ou exigentes. Filhos participam das responsabilidades da casa do Pai. Servir a Deus pode exigir esforço, dedicação e perseverança, mas fazemos isso não como escravos obrigados, e sim como filhos que cooperam com o Pai.

Segundo, não devemos permitir que pequenas irritações, regras humanas ou circunstâncias desagradáveis perturbem profundamente nosso coração. Quem vive como filho sabe que sua identidade e segurança não dependem dessas coisas.

 

Conclusão: A igreja contemporânea precisa redescobrir essa verdade essencial: o cristianismo não é uma religião de escravidão espiritual, mas uma vida de filiação com Deus. Quando a igreja esquece isso, surgem dois perigos: o legalismo, que transforma a fé em um conjunto pesado de regras e o desânimo espiritual, que faz o crente sentir-se constantemente derrotado.

Mas quando compreendemos nossa posição em Cristo, encontramos equilíbrio. Vivemos em santidade, mas também em alegria. Servimos com dedicação, mas também com liberdade.

Portanto, lembremo-nos sempre: somos filhos de Deus, não escravos. Vivamos na casa do Pai com gratidão, confiança e alegria, usufruindo da graça que Ele colocou à nossa disposição e cumprindo com fidelidade as responsabilidades que Ele nos confiou.

 

Pastor Adilson Guilhermel

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